quinta-feira, 1 de novembro de 2012

O FARDO



“Certa vez me perguntaram um de meus muitos defeitos, no momento não soube responder (talvez por existirem tantos), porém a pergunta não me deixou nem por um segundo.
Um dos meus principais defeitos, agora que pensei no assunto com cuidado, é o rancor que guardo. Sempre “senti” as coisas de uma forma um pouco mais exagerada do que a maioria das pessoas, quando estou alegre minha gargalhada chega a constranger alguns dos que me cercam, quando estou triste a melâncolia chega a dar pena, não seria diferente com as mágoas que carrego.
Por vezes me vejo conversando com alguém, porém enquanto o sorriso se faz presente, minha mente monta e remonta cada mentira que a mesma pessoa me contou, cada ferida que me foi aberta retorna e me sinto em uma sala de cinema onde sou o único espectador olhando para a tela gigante e revendo o momento no qual a ferida foi causada. Cada lágrima interna que foi derramada se transforma em combustivel me levando ao afastamento gradual pelo simples fato de não conseguir “deixar pra lá”.
Em determinadas situações meu afastamento é tão sorrateiro que a pessoa não chega a perceber minha ausencia até que seja tarde demais. Outras vezes meu afastamento é tão abrupto que não chegam a perceber o que foi feito de tão grave para que o afastamento ocorresse.
Na verdade o que poucos percebem é que por vezes não foi o ato final que causou toda a situação, ela apenas foi a gota derradeira que fez o copo transbordar, o rancor e as mágoas guardadas e acumuladas se fizeram pesados demais para me manter próximo de alguém que parece não se importar, ao mesmo tempo que não consigo apenas seguir em frente e deixar de lado as más recordações que sempre carrego.
Um fardo pesado demais para carregar, todavia, me é impossível deixar para traz.”

quinta-feira, 22 de março de 2012

INUMANO?!?!

Certo dia em meio a uma conversa eu respondi a um questionamento de maneira simples e direta, a pessoa que me ouvia se irritou e afirmou que fui grosso e ignorante, não me dei ao trabalho de tecer argumentos em minha defesa apenas disse que não fui grosso, apenas sincero e direto na resposta. A pessoa não concordou comigo no momento e se afastou. Porém momentos depois recebi sua ligação pedindo desculpas pela reação, afirmou que não havia raciocinado e tinha agido de maneira errada comigo, afirmou estar acostumada com a grosseria de terceiros, mas que não suportava a ideia de que tal situação viesse de mim. Notei que essa pessoa me via quase como uma alma superior, alguém que tem por obrigação sempre perdoar, relevar e apoiar.

Notei que foi gerado o costume de não se preocupar com palavras ou ações, pois existia a certeza de que um pedido de desculpas sanaria todos os danos, sequelas jamais existiriam afinal uma pessoa boa como eu jamais guardaria magoa de ninguém. È fácil ser amigo de alguém que não lhe cobra nada e em contra partida faz tudo o que pode por você, é fácil estar com alguém que escuta seus problemas sem se preocupar com os próprios. Com o passar dos dias notei pedido de desculpas por palavras, desculpas por ações, por gestos. Pedidos de desculpas pela pouca importância que era dada a amizade.

Por fim dei um aviso amigável, “Você sempre pede desculpas, enquanto eu faço de tudo para não precisar pedir.” Não sei bem se a pessoa compreendeu bem minhas palavras, mas notei que pouco foi feito para mudar. Só espero que essa pessoa consiga perceber a tempo que paciência tem limite, até mesmo a minha.

quarta-feira, 21 de março de 2012

CONTO: CORAÇÕES GÉLIDOS


O vento frio do rigoroso inverno era acompanhado por uma chuva de pingos fortes, os carros passavam em corrida contra o tempo, segundos parados não eram aceitos com paciência e os sons dos gritos e das buzinas ecoavam impiedosamente pelas ruas da cidade grande. Os transeuntes irritadiços caminhavam a passos rápidos e semblantes obscuros. Seus olhos não focavam no próximo passo, mas sim um futuro possivelmente muito distante, o foco distorcido que mantinham no dia-a-dia acelerado pelas obrigações sagradamente mundanas deturpavam o senso de justiça e prioridade adiando para amanhã o que deveria ser feito de imediato. O dia findava num crepúsculo cinzento e mantinha como amante as vidas apáticas e mórbidas.
 

Um cão perambulava pela rua, em seu caminhar o medo e a desconfiança poderia ser facilmente visto, mas ninguém sequer notou a presença do animal, seria pedir demais que notassem, cegos como estavam, que a pobre criatura hesitava em seus passos. Tremia, parte pelo frio, parte pela chuva, mas principalmente pelos maus-tratos destinados aqueles desafortunados, que por caprichos do destino fizeram dos becos e ruas sua morada sagrada. A chuva ajudaria a lavar o animal, mas suas feridas e dores não seriam levadas junto com a água podre que escorria em direção ao boeiro próximo, nem os maus-tratos cessariam, mas ele continuava como um errante sem conhecer seu destino, sem pensar nas consequências de seus atos, agia por instinto e seria assim até o triste fim.
 

Um relâmpago se fez presente no céu distante, seu brilho chamou à atenção de um menino, seus pequenos pés colocados a beira do boeiro tremiam de frio e ele apertava o braço esquerdo contra o corpo numa tentativa vã de buscar mais calor. O garoto encolheu os ombros e contorceu a face em uma careta de dor já prevendo o som estrondoso do trovão, quando este chegou finalmente, após segundos que pareceram minutos, ele apertou firme o punho tentando convencer a sí de que tudo estaria bem quando voltasse a abrir os olhos. Aquele olhar sofrido e triste, porém ainda mantinha um resquício de esperança num futuro melhor. Sonhava com uma casa quente e o carinho que nunca recebeu, sonhava em conquistar coisas que acreditava ser grandiosas, porém banais para a maioria. O garoto encostado em um poste repleto de panfletos levantava uma pequena lata velha e gasta implorando por ajuda de todos os que passavam, mas tais olhos sequer viam um ser vivo em sua frente, caso conseguissem enxergar não conseguiriam negar ajuda aqueles olhos.
 

Um gorro mais velho do que o próprio garoto e mais machucado do que a alma daquele pobre diabo era a única proteção para sua cabeça, uma camisa talvez ainda mais velha do que o gorro e que um dia já ostentou um rubro forte e orgulhoso, era a sua armadura contra o frio. Os pés descalços pouco eram sentidos, mas continuaria a caminhar se necessário em busca de alimento ou abrigo.
 

Com passadas firmes e fortes, o velho homem chegou à porta da frente do restaurante, segurava uma grande panela em suas mãos, mantinha um avental gasto no corpo onde inúmeras manchas em tons diversos faziam morada, em sua face o descontentamento era evidente, como se culpasse a Deus e todos os seres da terra por suas desventuras, mas havia certo orgulho em seu caminhar, pensava ser o mais importante dos homens, achava que o mundo ao seu redor tinha por obrigação girar e conspirar a seu favor e ao fim esse pensamento lhe pesava na consciência, pois apesar de todo o seu orgulho era ele quem carregava a panela para fora, por segundos os olhos do garoto brilharam, sua boca salivava de desejo e como um cachorro atraído pelo cheiro da comida ele se levantou e caminhou de encontro ao velho cozinheiro. Com arrogância e descaso o velho cuspiu aos pés do garoto que se afastou a tempo de evitar o muco amarelo e grosseiro. Antes de proferir qualquer palavra o velho entornou a panela, despejando todo o conteúdo na calçada. O garoto olhava para todo o caldo quente desperdiçado ao chão se misturado à chuva e escorrendo para o esgoto, já estava acostumado com tal situação, onde preferiam jogar fora as sobras a vê-las sendo utilizada por outros, mas lhe doía dentro do peito todas as vezes que tal ação lhe era apresentada. Distante em seus pensamentos não notou que o cozinheiro se afastava de volta para o restaurante segurando a panela, agora vazia, com apenas uma das mãos e resmungando algo mais para sí do que para qualquer outro.
 

Mais um trovão rúgio forte e um raio desceu sobre a torre de um dos grandes edifícios da cidade. O garoto olhava para o céu cinzento e vagueava em seus pensamentos sendo despertado por uma pancada forte em suas costas, assustado e dolorido deixou cair à velha lata e suas moedas se espalharam pela calçada, por um momento ficou imóvel sem saber se procurava a fonte da agressão ou se recolhia suas moedas. Foi atingido novamente, agora nas pernas e viu que o velho cozinheiro lhe agredia com uma vassoura enquanto berrava xingamentos contra o pobre garoto que pávido recolheu poucas das suas já escassas moedas. O garoto não tentou entender o motivo das agressões, apenas correu com suas pernas quase dormentes e pés descalços pela calçada molhada e fria, não olhou para trás, o que ficou não poderia ser recuperado agora, se tivesse sorte em outro momento talvez, mas não agora.

 

Caminhou até um beco próximo, vasculhou no lixo algo que lhe fosse útil e sentiu-se feliz quando encontrou uma caixa grande de papelão, além de alguns jornais. Naquele momento faria sua fortaleza com aqueles tesouros desprezados por outros. Cobriu-se com jornais e voltou a olhar o céu cinzento, a chuva torturava a caixa de papelão que agora era seu abrigo. O menino torcia para que a chuva logo se findasse. Notou então que era observado por uma criança, ainda mais jovem do que ele próprio, que o mirava através da janela de seu quarto, no andar superior de uma casa. A criança segurava um brinquedo na mão direita e um pedaço de pão na esquerda, mas seus olhos eram cheios de curiosidade a respeito daquele vizinho repentino que fazia do beco sua morada. Momentos depois a chama da curiosidade que iluminava os olhos daquela criança se apagou e ela perdeu o interesse no garoto, fechou a cortina do quarto, pois não queria mais ver a imundice da rua, voltou-se para o chão de seu quarto onde estavam espalhadas suas fontes de entretenimento.
 

O cachorro entrou no beco com passos incertos, seu olhar desconfiado e temeroso vagava analisando o terreno a sua frente. O garoto notou o pequeno animal e o chamou com uma voz suave, o cão olhou nos olhos do garoto, talvez analisado se o menino seria uma ameaça, cheirou o ar, olhou novamente para os lados e por fim se aproximou. A proteção do papelão não cobria o garoto por completo, ele se permitiu molhar ainda mais para dar um pouco de proteção ao cachorro. O animal buscou os olhos de seu companheiro novamente e o garoto sorriu ao encarar aquele olhar tão familiar, um sorriso sincero apesar de sofrido. O cão deitou ao lado dele e apoiou sua cabeça molhada no colo do menino que não protestou, apenas pousou a mão sobre o animal e o acariciou. Apesar do receio inicial o cão se sentiu seguro por alguns momentos, sua cauda balançava timidamente enquanto o garoto o acariciava.
 

Um poeta poderia dizer que ambos notaram que eram sofredores, que tinham sua cota de perdas e tristezas e que eles sentiram uma conexão instantânea quando se viram. Os mais trágicos exclamariam o quão tristes ambos estavam, o quão desafortunados tais criaturas eram e quais outras tantas provações teriam que suportar. Os mais realistas afirmariam que apenas não queria mais ficar sozinhos.
 

Porém, olhando daquele papelão o garoto percebeu que na realidade ninguém sequer os via.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

CONTO: SANGUE, SUOR E LÁGRIMAS


As mãos fortes empunhavam com honra e orgulho a espada de seus ancestrais, a lámina que lhe foi entregue por seu pai golpeava sem piedade aqueles que atravessavam o caminho do guerreiro. Enquanto corria o homem girou a lámina sobre sua cabeça e arrancou a cabeça daquele que se erguia imponente em sua frente.

O campo de batalha não é um lugar para mulheres ou crianças, naquele campo de batalha não havia homens, naquele momento eram feras, bestas do abismo que dominaram os corpos daqueles homens. O vermelho dos olhos presente nos vivos e nos mortos, e os rugidos de fúria eram suficientes para provar que a humanidade e compaixão já não mais existiam naquele local.

A morte pairava sobre todos desde o raiar do sol, horas haviam se passado, centenas morreram, poucos permaneciam de pé. A tensão crescente a cada momento terminou com as palavras profanas de ambos os lados, seguidos da marcha rumo à destruição e o som dos escutos se chocando retumbou por quilometros.

Seu caminhar era agora lento e traiçoeiro, companheiros e inimigos caidos mortos ao chão poderiam lhe tirar a glória e a vida num segundo de distração.

Parou por alguns segundos, atordoado pela visão da verdade, muitos amigos estavam mortos, ele estava proximo do mesmo destino. Olhou ao redor e vislumbrou o terror, o medo e a dor nos olhos dos mortos. Gritos de terror e agonia eram ouvidos, ecoavam pelo campo vasto onde os tons de verde e vermelho no solo se misturava ao tom laranja do céu ao entardecer. O chão estava lamacento, mas não chovia há dias, seus passos estavam pesados, poças de lama vermelha tentavam segura-lo, impediam seus passos ligeiros, talvez suplicassem para que as mortes cessassem, mas não havia volta agora.

O sangue e o suor se misturavam enquanto caminhava rumo ao seu inimigo, assustou-se quando uma lança longa foi arremessada contra sua cabeça, por puro reflexo conseguio evitar a morte arremessando-se ao chão. Deitado sobre o peito de um inimigo morto com um corte profundo na garganta sentiu pena daquele pobre homem, mesmo com o rosto coberto por lama e sangue percebeu que ele havia chorado momentos antes de morrer, a dor e o medo do desconhecido deveriam ter aterrorizado aquela alma nos últimos segundos de vida.

Buscou forças que achava não mais existirem e ergueu seu corpo, agora mirava seu inimigo nos olhos, este não segurava mais nenhuma lança somente espada e escudo. Em segundos já estavam engajados no último combate da vida de algum deles, um combate que não seria definido pela força dos braços ou pelo fio das láminas, mas sim pela força de vontade, pelo desejo de viver, pela atenção e reflexos.

Os olhos não se evitavam e os musculos se mantinham firmes, ambos os lutadores estavam atentos ao menor dos movimentos, nenhum deles ousaria exitar por um segundo que fosse. As espadas quase não tinham fio, gastas devido ao longo dia de mortes pareciam dois porretes, mas naquele momento não importava.

Pouco depois o combate estava decidido.

O lanceiro foi ao chão com força com as mãos na barriga, tentava desesperadamente segurar o sangue que escorria farto, um esforço inútil, pouco depois estava inerte, seu sangue se misturando aos de tantos outros que deram a vida por nada, uma briga que não lhes pertencia, porém foram obrigados a lutar honrando juramentos antigos. Mas dentro em breve outro cairia, a força de vontade e desejo de viver de ambos era identica.

Estava tudo acabado para ele, o ferimento profundo causado pela lâmina de uma espada estava ali para provar. Sentia frio por dentro, mas sua pele estava quente, o sangue jorrava farto, o calor que acompanhava o rio vermelho que nascia de seu do seu proprio corpo era seu único conforto naqueles últimos momentos. Em breve nada mais importaria, fecharia seus olhos para sempre, ou até que seu deus lhe acordasse para julgar se merecia passar a eternidade com seus antepassados.

O joelho esquerdo cedeu ao peso e ao cansaço, a mão direita segurava firme a espada, não largaria por nada, morreria como um guerreiro, empunhando com orgulho sua espada. A mão esquerda foi ao peito, sentiu o calor de seu sangue e sorrio um sorriso de alivio e desespero, estava acabado e sabia disso.
Não demoraria muito mais.

Seu peso era insuportável, não aguentava mais se manter ajoelhado, como um saco de pedras foi pesado ao chão, gastou suas últimas forças para mover o corpo um pouco e ficar com as costas ao chão, queria que sua última visão fosse o belo crepúsculo daquele verão que havia começado tão bem. Pensou em seu filho, seu primogênito que agora cresceria ser ter a orientação do pai.

Sua respiração falhava, o sangue escorria de sua boca.

O sol começava a se esconder no horizonte, as montanhas gemeas pareciam maiores agora, queria poder olhar o brilho do sol por mais tempo, queria sentir o calor na face um pouco mais, mas até mesmo isso lhe foi negado. As sombras da noite chegaram rápido, não via estrelas, não havia lua, tudo estava quieto, um silêncio profundo o atingio.

Nada mais importava, estava em paz agora.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

CONTO: DESEJO CARNAL

Marina abriu a porta, chegava em casa após um dia de trabalho bem pesado. Ela era uma jornalista exigente consigo mesma, e não se permitia a erros profissionais. Tinha acompanhado o caso sobre os atentados à cidade, e desde então passou a trabalhar junto com o detetive Morrison na busca de encontrar o causador de todos os ataques. E aquele dia tinha sido proveitoso, eles haviam encontrado uma pista quente, que os aproximaram ainda mais do fim do caso.
Passando pelo corredor, pendurou as chaves e seguiu para se preparar para um bom banho. Foi se despindo à medida que andava, e foi se lembrando de alguns fatos que chamaram sua atenção mais cedo. Com a ajuda de Morrison ela conseguiu burlar os protocolos para conseguir uma entrevista com o suspeito que estava sendo acusado de ser cumplice dos causadores dos atentados. O suspeito acabou negando tudo, dizendo que não era culpado. Mas ela já sabia que era isso que aconteceria e não se convenceu com o que ele lhe disse, mesmo não descartando a possibilidade de ele ter dito a verdade.
A entrevista era valiosa, não poderia ainda ser publicada, era algo totalmente confidencial entre ela e Morrison. E se fosse parar nas colunas dos jornais eles estariam com grandes problemas.
- Tenho que guardar essa entrevista em algum lugar – disse ela quando seu gato se aproximou do seu pé. – O que você me diz, Bart? – perguntou ao animal. – Onde devo colocar? Diz aí. – O animal apenas a encarou e passou uma das patas sobre o focinho, e ela entendeu que ele tinha fome e colocou sua ração.
Depois segurou o pen-driver que continha a gravação da entrevista e o guardou atrás do espelho do banheiro; um lugar bem inusitado, mas que poucos procurariam.
Desde quando tinha começado a partilhar suas buscas com o detetive Morrison, Marina passou a se sentir mais segura, mais capaz, e, além disso, ela se sentia mais querida, desejada. Ela percebia do jeito que ele sempre a olhava, nunca passando do limite do respeito, mas com um olhar cobiçador, de desejo intenso. Ele era gentil, educado e honesto, mas ela tinha medo de conceder-lhe qualquer oportunidade por não saber ao certo o que ele realmente queria; compromisso ou somente sexo. Ela nunca tinha entrado em um relacionamento de verdade, sempre estava ocupada com alguma coisa, desde os estudos até a época do trabalho, e nem ligava muito para esse tipo de coisa, era bem resolvida vivendo sozinha. Mas o detetive tinha algo que lhe atraía. Em pouco tempo que eles estavam juntos ela já tinha sentido várias vezes vontade de ceder aos olhares e indiretas que ele sempre lhe lançava. Ele era o único homem que tinha a deixado assim, e percebia que aos poucos ia se deixando levar por seus desejos, lutando para continuar o rejeitando de forma amistosa, nunca desfazendo sua esperança por completo, pois ele estava sendo importante para ela, estavam em busca da mesma coisa.
Deu-se conta da água que enxia a banheira enquanto ela, distraída, pensava encostada no Box. Fechou a transmissão, preparou o banho e relaxou quando seu corpo delgado foi acariciado pelas águas mornas.
Era uma noite de clima agradável, lua cheia e céu estrelado. E após o banho relaxante, ela pegou o seu notebook para avaliar alguns arquivos que até então estavam sem nexo, mas que agora começavam a caber em outras peças do quebra-cabeça de pistas. Sentou-se à mesa com uma caneca de café, apenas de toalha, verificou se não havia perdido nenhuma chamada no celular e quando iria começar a analisar os dados percebeu que seu gato, que até então estava distraído na janela, passava a arranhar a porta com as patas.
- Não faça isso, Bart! Não precisa ficar toda vez me avisando que alguém irá bater na porta. É para isso que existe a campainha.
Tomou cuidado para impedir que o gato aproveitasse um vacilo seu para fugir, e logo então abriu a porta, e seu olhar primeiro avistou o peitoral do homem em sua porta para depois olhar em seu rosto e se assustar com a visão do detetive Morrison a encarando com um sorriso na face.
Ruborizou, não soube o que fazer agora que tinha proporcionado ao homem aquela visão. Não sabia se batia a porta em sua cara ou se tentava agir com naturalidade e o convidava para entrar. Acabou não fazendo nenhuma das duas coisas, e ficou imóvel apenas o encarando e ficando cada vez mais envergonhada.
- Perdão – disse o detetive, também sem jeito, mas gostando da visão. – Eu espero aqui fora. – e se virou.
A porta estava totalmente aberta, e ela só despertou do choque quando seu gato fugiu e um vizinho do apartamento ao lado foi passando e querendo lhe atirar o olhar. Não disse nada. Fechou a parta deixando a visita do lado de fora e se se encostou à parede ganhando ar para reagir. O que ele faz aqui?, pensou. Por que assim sem avisar?
O perfume que ele sempre usava invadia seu apartamento e a deixava ainda mais sem jeito, hipnotizada por pura atração. E fazendo não valer de nada ter fechado a porta, ela abriu novamente convidando-o para entrar.
- Desculpe, eu não estava preparada – tentou se justificar.
- Quem deve desculpas sou eu, por não ter te avisado – ela falava sem olhá-la. – Desculpa pelo o incomodo, mas é que um assunto precioso me traz aqui, e eu não quis falar por telefone ou qualquer meio que possa ser grampeado. Queria falar olhando nos seus olhos – e agora ele se virou para ela. – Será que tem algum problema nisso?
Ela tinha fechado a porta, e aquele perfume fez com que ela ficasse apoiada pelas costas na porta, segurando os desejos. Mas quando ele se virou ela estava recomposta, séria, pois jeito no qual ele falava sugeria algo sério.
- Espere um pouco até que eu coloque um traje mais adequado para conversarmos – ela estendeu a mão para que ele se locomovesse para um dos sofás, mas ele esperou que ela passasse em sua frente e aproveitou para sentir o cheiro de seu corpo.
- O assunto já é sério, Marina, talvez um traje mais inadequado fizesse com que tudo ficasse menos tenso. Nada melhor que uma boa visão nessas horas. E uma visão igual a que estou tendo é bruscamente maravilhosa – e agora ele faria como sempre fazia: – Bonito apartamento. Depois dizem que jornalistas não ganham bem – ele sempre desfaçava a gracinha com outra frase em seguida. Mas daquela vez ele tinha dito com um tom mais atraente aos ouvidos de sua interlocutora, que parou para olhá-lo indecisa do que fazer.
- Jornalistas recebem de acordo com o que fazem, senhor Germene Morrison.
- E detetives recebem de acordo com o que se propõe a fazer, senhorita Marina.
 E ambos foram se aproximando. A cada passo Marina sentia o molhado aumentar entre suas pernas.
- Qual visão se refere, Morrison? Ao que enxerga agora, ou ao meu apartamento?
- A beleza da segunda opção não se compara com a plenitude da primeira. Nós merecemos nos divertir nas horas vagas, Marina. Divertir-nos de forma que nossos sentimentos explodam de tanta euforia.
Ela apenas andou em sua direção. Estava hipnotizada, sem conseguir lutar ou se controlar, e ao mesmo tempo em que queria tanto fazer aquilo, temia o que fosse acontecer depois. Queria correr, sair dali, queria ter forças para resistir à atração que sentia por aquele homem. Mas não conseguia.
Os dois se encontraram, e de imediato ele agarrou sua cintura, com uma força que a fez soltar um suspiro, trazendo-a para mais próximo do seu corpo. Marina se viu entregue, sem poder resistir, e o homem aproveitou a oportunidade e a fez se sentir ainda mais inofensiva, quando desprendeu a toalha que rodeava seu corpo cobrindo sua nudez e puxou sua cabeça para que seus lábios se encontrassem.
Marina sentiu a toalha cair no chão assim como sua tensão. Ela já não queria voltar, queria usufruir tudo que aquilo lhe poderia proporcionar, e suas mãos procuraram as bordas da camisa do amante para retirá-la. Jogou o pescoço para trás para sentir o beijo agressivo que ele lhe dava, sentiu seus seios roçar contra o peitoral firme do parceiro, enroscou os dedos em seus cabelos e lhe devolveu o beijo com uma mordida nos lábios, quando desceu para conhecer seu cangote. Sentiu a luxúria tomar conta totalmente do seu corpo, sentiu seu órgão enxercado enquanto se sacudia no jogo do amor. Aquilo só podia ser o que todos chamavam de tesão! Ela nunca havia sentido nada igual antes, e se considerou um animal no cio quando sentiu uma das melhores sensações de sua vida.
  Sua perna tremia, seu corpo estava quente e apertava ele contra seu corpo com uma força descontrolada.
- Por que demoramos tanto? – disse quando conseguiu ter concentração para fazer outra coisa além de buscar o outro corpo.
Ele não te respondeu nada, parecia está descontrolado de prazer e tesão, e desceu buscando os seios da moça. Ela tremeu quando sua língua deslizou por toda extremidade do seio até chegar ao mamilo, e a força que ela cravou suas unhas nele foi tão grande e um gemido tão intenso que ele notou o orgasmo. O suor exalava a relação, o cheiro dos dois se misturava e cada vez mais eles se descontrolavam. Recostaram-se sobre o sofá e ela o ajudou a se despir. Com o peso de seu corpo Morrison fez com que Marina ficasse presa ao sofá enquanto ele deliciava o seu cangote e deslizava as mãos sobre sua coxa até encontrar o seu sexo entre os quadris e acariciá-lo sentindo que ele estava tão húmido que fazia barulho ao mínimo toque, e fazendo com que ela o desejasse ainda mais.
Marina se perdeu com a ação do homem, suas mãos buscaram o braço do sofá, depois os lados, a própria cabeça num delírio descontrolado e logo depois se prendeu a ele com braços e pernas.
- Eu não aguento mais – ela admitiu. – Temos de começar logo.
Aquela mulher era o que mais Morrison cobiçava, queria possui-la de qualquer forma, e já não aguentava mais apenas ter de olhar sem poder fazer nada. E agora eles estavam juntos, e estariam mais ainda a partir de então.
As pernas de mulher estavam suficientemente abertas para caber o homem no meio, o que era o mesmo que completamente. Ela não resistia àquele homem, ele era dono de seu corpo e das suas ações. E quando ele desceu deslizando a língua sobre seu abdome até pouco abaixo do seu umbigo, ela teve outro jorro da sensação causada pelo sexo e urrou um gemido, depois puxou ar entre os dentes. Todo seu corpo arrepiou, a sensação causou-lhes tremedeiras nas pernas, e, por sorte, ela já estava deitada, pois não aguentaria se manter de pé com todo aquele êxtase movendo em seu corpo. E quando ele se arqueou sobre seu corpo sujeitando seus braços com as mãos e lhe levando ainda mais à submissão, ela ergueu o próprio corpo para que o contato acontecesse logo, e ele se debruçou sobre ela com uma excitação monstruosa, penetrando-a. Marina se prendeu ainda mais a Morrison, sentindo o membro lhe invadir alargando o caminho estreito de seu corpo, causando uma sensação que ela pensou nunca sentir. E disse num sussurro de gemido:
- Não pare, por favor, continue. Assim. Vai.
O detetive já não conseguia se segurar, mas queria usufruir mais da mulher. O calor dos corpos não era seu aliado, nem o úmido persistente em seu membro e nem os gemidos e sussurros que ela lhe dava no ouvido.
- É tão bom te sentir assim, Marina – respirou, o coração disparado. – Não pode ser apenas hoje. Não pode.
Segurou até onde pôde, se enroscou à mulher com força e não conseguiu mais aguentar. Ela emitiu um gemido e fez com que ele sentisse sua satisfação, e ele, generosamente, deu-lhe o que tinha de dar.


Autor Deste Conto: Éric "Kot" do Blog Conto em Letras. Twitter: @LordeEric

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

POR VEZES


Por vezes desejamos descobrir como tudo começou, como chegamos até aquele ponto, onde demos o primeiro passo, em que ponto de nossa vida começamos a trilhar aquela estrada, para então tentar decifrar o fim da jornada, sem compreender que o mais importante é justamente o modo que trilhamos o caminho e não o seu fim.

Por vezes tudo o que queremos é caminhar rumo ao nosso paraíso, o lugar que tanto desejamos, aquele ponto onde acreditamos estar seguros, onde nada poderá nos ferir, onde tudo parece mais belo.

Por vezes devemos caçar os males que nos rodeiam, sejam eles físicos, mentais ou espirituais, simplesmente devemos nos armar com o melhor que temos e enfrentar nossos inimigos.

Por vezes por melhor acompanhado que estejamos, nosso inimigo nos surpreende com sua força e poder, parecendo ser invencível, indestrutível, mesmo que contemos com toda ajuda que acreditamos ser possível conseguir.

Por vezes aqueles que julgávamos como inimigos são justamente os que nos ajudam e dão suporte quando precisamos de um apoio.

Por vezes a caminhada parece ser dura e a estrada está ainda muito distante do fim e tudo o que desejamos é um bom local para descansar e repor as energias, mas nem sempre o primeiro lugar que achamos é o melhor.

Por vezes nos sacrificamos por algo que não vale a pena, simplesmente para o bem-estar daqueles que não nos dão o valor que merecemos, mas, mesmo que de forma indireta, nosso sacrifício sempre trás um bom fruto.

Por vezes nossas qualidades causam a ira e a inveja nas pessoas que, por não serem como somos, nos atacam e para satisfazer seu manchado ego, nos pintam e moldam para a sociedade como monstros horrendos que devem ser exterminados.

Por vezes nossa jornada segue por águas turbulentas, que segue caminhos intrincados, praticamente impenetráveis e achamos que não sairemos vivos dessa parte já jornada, mas lembre-se que a calmaria vem antes da tempestade, mas sempre está presente ao fim dela também.

Por vezes a vida mostra-se como uma fera nos olhando diretamente nos olhos, tentando nos intimidar, fazendo com que a chama dentro de nós diminua a cada obstáculo, a cada dificuldade, mas não devemos nos desanimar, devemos acender ainda mais a chama que arde dentro de nós em busca da vitória.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

CONTO: PASSOS INSEGUROS


A chuva caía fina e irritante. Era o final de mais uma tarde, o sol se punha lentamente, mas seu brilho era pouco visto, mantinha-se escondido por detrás de nuvens cinzentas e melancólicas.

Ela caminhava apreensiva, segurava sua mochila contra o peito em um abraço forte, o frio daquele pálido entardecer era diminuído pelo capote branco que ela usava, sua cabeça estava protegida pelo capuz, mas ainda assim caminhava cabisbaixa. Evitava parar em sua caminhada de volta a sua casa, porém por vezes era forçada a isso para limpar as lentes dos óculos que teimavam em embaçar como se a chuva não fosse o suficiente. Seu caminhar seguia um compasso continuo num misto de pressa e prudência, forçando-se a não transparecer no caminhar o medo que sentia crescer segundo a segundo.

Seu coração estava apertado, o terror estampado na face oculta pelos óculos e capuz.

Ela sabia que mais a frente estaria um pouco mais segura, muito mais segura do que estava agora caminhando por uma rua estreita e deserta. Em seu caminho a sujeira fazia morada e caixotes de lixo estavam entulhados, prontos a transbordar. As poças de lama cresciam e se uniam em outras maiores a cada momento, mas ela não se importava em sujar as botas ou a roupa, contanto que fugisse dele.

Seus braços tremiam, não tinha mais a certeza se pelo vento frio que acompanhava a chuva que agora aumentava de intensidade, ou se tremia do medo. Ela podia sentir que ele se aproximava, podia ouvir sua respiração se aproximando, ouvia seus passos ao pisar nas poças. Ainda faltava muito para o fim da rua e então finalmente a avenida principal, o movimento, as pessoas, uma possibilidade de fuga.

Pelo canto dos olhos mirou uma janela fechada, o vidro serviu como um espelho precário, mas lhe deu a certeza indesejada, ele estava lá. Não viu seu rosto, este estava oculto por um guarda chuva preto, viu que usava botas negras e um sobretudo da mesma cor, ele, seu perseguidor era um homem alto e encorpado. Não viu, mas tinha a certeza que sorria de forma doentia como se o pânico dela o divertisse, como se o terror fosse agradável aquela criatura vil.

Porque me persegue?”. Pensava enquanto afundava o pé esquerdo em mais uma poça d’agua, poça essa que encharcou até o seu tornozelo.

O que eu fiz para me seguir?”. Atrapalhou-se com os passos e tropeçou, evitou a queda por pouco, mas não conseguiu segurar a mochila, o medo de parar e recuperar seu pertence era maior do que a sua força de vontade, resolveu deixar a mochila caída ao chão, lhe faltava coragem para parar. Continuou a caminhada, faltava pouco, já podia ver algumas pessoas andando na avenida principal.

Um som forte veio de sua direita, um barulho próximo e alto.

O grito de pavor não pôde ser contido, lágrimas rolaram em seu rosto misturado às gotas pesadas da chuva. Evitou a fonte do barulho voltando o rosto levemente para a direção contraria.

Murmúrios já eram ouvidos vindos da avenida principal, mas a voz forte de seu perseguidor a estremeceu, não ouviu com clareza, mas ele parecia ter dito “Garotinha, deixou cair sua mochila”. Sua voz estava alegre, talvez ele mantivesse um sorriso enquanto falava e isso a deixava ainda mais tensa, um homem como esse só poderia ser um louco, um doente.

Garota, a sua mochila!”. Dessa vez ele falou mais alto, quase um grito. Ela estremeceu com o chamado, mas não ousou se virar e encara-lo. Limitou-se a andar ainda mais rápido, praticamente corria para a avenida, mesmo que desajeitada e cambaleante. Seu tornozelo esquerdo doía mais a cada passo.

As pessoas continuavam a andar pela avenida, ela podia vê-los, mais alguns passos e estaria a salvo. A alegria e esperança diminuíram ao perceber uma sombra crescente vinda de trás, com certeza seu perseguidor tentaria segura-la, seu braço quase a tocava no ombro, pouco depois ela sentiu…

O toque gélido do perigo. Ela sentiu a visão ficar turva e escura, como se o manto sombrio da morte lhe envolvesse, mas não iria se entregar, faltava tão pouco para chegar ao ponto seguro, não poderia deixar ser levada agora. Lutou contra o medo que segurava suas pernas, sua mente agia depressa, mas seu corpo não acompanhava, não obedecia. Inclinou-se bruscamente para frente para fugir da mão maligna se seu perseguidor ainda pousada em seu ombro direito, em seguida usou o impulso para forçar suas pernas a lhe obedecerem. Deu certo, começou a correr, não tentou olhar para trás e ver se mantinha distância, ou se seu perseguidor estava perto, correu para se salvar.

Menina!” ouviu mais uma vez o chamado, mas ignorou por completo, faltavam poucos metros, poucos passos. Finalmente chegou a avenida e rapidamente se misturou. Somente quando o perigo já havia passado se deu conta de que seus documentos estavam em sua mochila. Ele ainda poderia encontra-la.

Entretanto estava a salvo, e isso era tudo o que importava por agora.