quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

BLUES

Estava cansado demais para me manter acordado, todavia não conseguia dormir. Mantive-me sentado a beira da cama, os cotovelos postos sobre os joelhos me conferiam uma leve curvatura. Não sei por quanto tempo fiquei imóvel. O olhar estava fixo, entretanto mirava o nada. Eu tinha certeza que toda uma mixórdia ocorria no mundo lá fora, mas nada ouvia. Parecia estar surdo. Parecia estar mudo. Parecia estar cego.

Não vi quando ela se aproximou. Leve como sempre, sorrateira como sempre. Apenas me dei conta de sua presença quando senti o frio.

Ela me abraçou por traz cruzando seus braços em meu corpo. Senti um arrepio subir pela minha espinha parando apenas em minha nuca. Em meu pescoço ela roçava seus lábios vermelhos e vem em vez brincava com mordidas de marfim superficialmente profundas.

Levantei em sobressalto, minha velha companheira me surpreendeu com sua visita. Apesar de tudo não esperava aquela antiga amante de volta. Esfreguei os olhos desejando estar sonhando, desejando acordar logo, mas nada mudou. Fitei-lhe os olhos de ônix, belos e enigmáticos onde sempre me perdi. Olhos que pareciam zombar de mim, um olhar que explicitava o quão obtuso eu era, olhos que no silêncio gritavam o quão enganado eu estava.

Ela sorriu... Um sorriso tão alvo e perfeito quanto perigoso, um sorriso que seduz à perdição e esquecimento.

Com calma ajeitou-se na cama, sem nunca parar de fitar meus olhos e manter o sorriso afável. Estendeu as mãos em minha direção em um convite silencioso ao qual nunca consegui resistir. Toquei em suas mãos frias e me aninhei em seu colo, tentei fugir de seus olhos, mas foi uma luta vã. Quando começou a deslizar seus dedos suaves como mármore, acariciando minha cabeça, me entreguei de todo a seus carinhos.

“Pobre criança”, ouvi sussurrar, “não aprendeu e talvez nunca aprenda”, sua voz era pura, sua voz era puro blues “não importa o quanto corra, não adianta tentar fugir”, eu estava perdido em seus olhos de ônix, estava imerso em seu sorriso de marfim, “eu sempre estarei contigo”, então me vi mergulhado nas profundezas de minha amante e a todo o momento escutava novamente o blues de sua voz, a todo instante, como um eco que lá estava apenas para reforçar as suas palavras “eu sempre estarei contigo”.

terça-feira, 2 de abril de 2013

MEUS FANTASMAS



"Escolho por fechar os olhos, pois a visão dos fantasmas que me 
perseguem é dura demais para encarar. Entretanto na escuridão 
a visão deles se torna ainda mais forte, mais cruel. Me vejo diante 
das dores, dos amores, dos rumores, dos valores perdidos e vontades
 achadas. Os caminhos para a fuga se tornam tempestuosos em meio 
a escuridão e algo parecido com a minha propria voz sussurra ao pé de 
meu ouvido 'Como esquecer o passado, sem esquecer quem sou no 
presente?'

AI SE CÊ SOUBESSE

"Queria eu que vossa mercê percebesse que recriminar o "uai", o "báh" ou o "véi" 
seria o mesmo que renegar a própria história de sua lingua.
Gostaria que vossemecê entendesse que seja por mãe, minha mãe ou mainha, o 

que importa é chama-la.
Você deveria já ter entendido que o "visse" não é de outro mundo, nem o "bóra",

nem o "né".
Ai se "cê" soubesse que o "tchê" e o "ôxente" são primos, fisicamente distântes você 

pode achar, mas ainda assim descendentes da mesma lingua mãe.
Suplico que entenda que "bão" mesmo é justamente essa diversidade.
As semelhanças dos parentescos são tão visíveis.
Basta querer escutar."

sábado, 12 de janeiro de 2013

MINHA NATUREZA

"Nunca foi de minha natureza ser como o fogo.
Nunca tive paixões repentinas que logo se esfriavam, assim como nunca fui de me deixar levar pela raiva. A calma, a paciência e a compreensão sempre fizeram parte de minha índole.

Por um tempo me permiti ser como a água, me moldando da melhor forma para melhor me adaptar ao ambiente onde vivia. Mais alto, mais baixo, mais gordo, mais magro, mais inteligente, mais burro, tudo dependia de com quem e onde estava.

Depois me deixei transformar em terra, podendo ser sim moldado, mas já mais firme, mais bruto e convicto. Teimoso em determinados momentos, mas ainda assim capaz de formar coisas belas. Capaz de ser o ponto de segurança daqueles que em mim se apoiavam, mesmo que na verdade estivesse pronto para desabar.

Porém agora quero me inspirar no vento, que mesmo quando passa de leve, é notado. As vezes desejado, por vezes temido, porém sempre implacável. Quando preciso, capaz de enviar para longe o desnecessário. Aquele que pode beijar-lhe a face de forma suave ou com as mais simples palavras lhe trazer o medo. As vezes imperceptível, sempre presente, sendo simplesmente frio."

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

APENAS PALAVRAS



O que é mais significativo, as palavras ou o gesto?

“Eu te amo”. Palavras tão curtas, com uma carga emocional tão forte, ou pelo menos deveria assim ser.

Se você tivesse que escolher apenas uma das opções, qual seria: Escolheria ouvir todos os dias “eu te amo”, proferido com fervor e olhar sincero e ter o restante negligênciado, ou escolheria não ouvir as tais importantes palavras, porém viver tendo a certeza do sentimento pelas maiores demonstrações?

Tantas foram as pessoas que já me confirmaram o seu amor, entretanto as palavras foram seguidas por gestos e atitudes que contradiziam o tão valorizado sentimento. Mas as juras permaneciam imutáveis, chegando ao ponto de justificar que o sentimendo era puro e por isso justificava-se por sí só, tornando as culpas e faltas menores.

Tantas vezes permaneci calado enquanto ouvia tais palavras e tão fortemente fui julgado por não proferi-las em retorno. Quantas vezes deixei que o carinho, o cuidado e a atenção falassem por mim. Todavia ainda era julgado por não pronunciar as tão importantes palavras. Todo o carinho era esquecido, todo o cuidado ignorado e a atenção parecia jamais ter existido, dando lugar ao monstro do meu silêncio.

Frio, tolo, ignorante, rude, já escutei tudo isso. Então eis que surge meu questionamento. O que é mais significativo, as palavras ou os gestos?

O SILÊNCIO E EU



"E continuo com essa estranha relação com o silêncio. Como algo consegue ser tão simples, facilmente destruido, e ao mesmo tempo ser tão poderoso? Os sons, as músicas por vezes me aborrecem de tal forma que desejo o silêncio, esse parceiro, amigo de tantos momentos, aquele que nunca falhou comigo, porém perante o mesmo silêncio minha mente se desfaz em dezenas de diálogos com diversas pessoas e situações. Desabafos e brigas ocorrem, debates fervorosos surgem, mágoas retornam a vida como fantasmas impossíveis de serem esquecidos, mas ainda assim, de uma forma estranha, o silêncio me conforta. Com força desejo que o meu amigo que tanto me ensinou seja quebrado e destruido por uma voz, pela frase correta, tornando impensável ouvir qualquer outra coisa. Mas a voz não vem e o silêncio permanece. Inabalável. Inquebrantável. Implacável. Tão frágil.”

DESCULPAS SINCERAS



Devo admitir que sou carente por natureza, quase uma carência crônica. Se estou com a pessoa desejada por dez horas quero mais, quando chegam as doze horas insisto por um dia inteiro e nem mesmo quando isso acontece me satisfaço.

Não me tome como grudento ou louco, talvez o louco eu bem seja, mas não vem ao caso agora. Não me refiro apenas ao abraço, ao carinho em sí, mas é a presença que me cativa, a conversa me conquista e o riso me arrebata.

Sei muito bem cuidar de mim mesmo, não me deixo tornar alguém que bagunça mais do que arruma, mas procuro e preciso de alguém que me ajude a cuidar de mim mesmo. Preciso de alguém com quem me preocupar e que demonstre a mesma coisa.

Sou assumidamente carente, peço desculpas sinceras a quem se encomoda com minha carencia, porém é algo que não consigo mudar.